Atirador da Catedral de Campinas não possuía autorização para ter ou usar arma de fogo, dizem PF e Exército

Morre mais uma vítima de atirador que invadiu Catedral Metropolitana de Campinas

Morre mais uma vítima de atirador que invadiu Catedral Metropolitana de Campinas

O atirador que matou cinco pessoas e depois se suicidou na última terça-feira (11) durante ataque à Catedral de Campinas não tinha autorização para ter ou portar armas de fogo, segundo a Polícia Federal (PF) e o Exército. Os dois órgãos são os responsáveis pela concessão desse tipo de registro no país.

Euler Fernando Grandolpho, de 49 anos, usou uma pistola CZ 75B, 9 milímetros, de fabricação checa, para disparar 22 tiros contra as vítimas que assistiam a uma missa na igreja do interior de São Paulo. Também portava um revólver Taurus calibre 38, que não chegou a usar. Além disso, possuía mais 28 munições.

De acordo com a Polícia Federal, com sede na capital paulista, não há registro de armas em nome do atirador no banco de dados do Sinarm (Sistema Nacional de Armas). Nesse cadastro constam autorizações para posse e porte de armas para defesa pessoal ou trabalho.

Grandolpho também não tem nenhum registro no Sistema de Gerenciamento Militar de Armas, banco de dados de caçadores, atiradores e colecionadores, segundo o Comando Militar do Sudeste, que é um braço do Exército brasileiro com base na cidade São Paulo.

Euler Fernando Grandolpho, de 49 anos, atirador que matou 4 pessoas na Catedral de Campinas e depois se matou — Foto: Reprodução/FacebookEuler Fernando Grandolpho, de 49 anos, atirador que matou 4 pessoas na Catedral de Campinas e depois se matou — Foto: Reprodução/Facebook

Euler Fernando Grandolpho, de 49 anos, atirador que matou 4 pessoas na Catedral de Campinas e depois se matou — Foto: Reprodução/Facebook

Quem forneceu a arma?

A polícia de Campinas apura se alguém o ajudou a obter o armamento. Policiais investigam se a pistola e o revólver, que estavam com as numerações de registros raspadas, pertenciam ou pertencem a alguma colecionador ou atirador profissional.

Para tentar rastrear o caminho que as armas fizeram até chegar em Euler, a investigação pedirá ajuda a Polícia Federal e ao Exército. O objetivo, segundo investigadores, é identificar a origem delas e de seus primeiros compradores.

Os policiais também querem que a PF comunique eventuais registros de furto dessas armas que estavam com Euller, nos últimos anos. De acordo com os investigadores, o Exército poderia ajudar apresentando uma relação de atiradores ou colecionadores cadastrados que têm ou tiveram pistola similar usada pelo atirador.

“O que eu acredito no momento é que essa arma seja de algum colecionador ou algum atirador esportivo. Portanto, já pedimos ajuda para o Exército Brasileiro e também para a Polícia Federal, que possuem um banco de informações sobre essas armas, para descobrir se nos últimos dois ou três anos, uma arma com essas características foi subtraída”, afirmou o delegado Hamilton Caviola Filho à imprensa após a chacina.

O revólver encontrado próximo ao corpo de Euler na igreja foi desmontado. Nele constam números internados de fábrica que podem ajudar a identificar o número oficial de série. Por esse motivo, a arma poderá ser enviada a empresa fabricante. Os policiais esperam que a Taurus forneça informações sobre a venda dela para se chegar a quem a comprou pela primeira vez.

Inicialmente, quem foi ou é dono dessas armas poderia ser ouvido para prestar esclarecimentos sobre o paradeiro delas, o que ajudaria a polícia a entender como elas chegaram a Euler.

Após analisar visualmente as imagens das câmeras da igreja, policiais comentaram que Euler tinha habilidade para recarregar a pistola, o que demonstra que ele sabia usá-la. Ele aparece no vídeo trocando um pente da arma enquanto caminha pelos bancos da Catedral.

A investigação é feita pelo 1º Distrito Policial (DP), no Centro de Campinas, com apoio do Setor de Homicídios da cidade. Também serão ouvidos outros parentes do atirador, além de testemunhas e sobreviventes do atentado para prestar depoimentos.

Detalhe da numeração raspada da arma utilizada pelo atirador da Catedral de Campinas (SP) — Foto: Fernando Evans/G1Detalhe da numeração raspada da arma utilizada pelo atirador da Catedral de Campinas (SP) — Foto: Fernando Evans/G1

Detalhe da numeração raspada da arma utilizada pelo atirador da Catedral de Campinas (SP) — Foto: Fernando Evans/G1

Segundo a Polícia Militar (PM), logo após escutarem os disparos na Catedral, policiais militares entraram na igreja e balearam Euler na costela para impedir que ele continuasse a atirar contra os fiéis. Ferido, ele se matou com um tiro na cabeça, de acordo com a corporação.

Câmeras de segurança da catedral, que é da religião católica, gravaram o momento em que Euler saca a pistola e atira (veja acima).

A Polícia Civil investiga a motivação da chacina cometida pelo homem, que morava com os pais em Valinhos, e trabalharia como analista de sistemas após ter pedido exoneração do cargo de oficial de promotoria no Ministério Público (MP).

Entre as hipóteses apuradas para explicar o crime estão o fato de Euler ter tido uma espécie de surto psicótico em decorrência de depressão. Segundo parentes e testemunhas que conviviam com ele, o atirador tinha mania de perseguição, chegando a denunciar vizinhos à polícia que supostamente o estariam seguindo.

“Ele tinha um perfil de se sentir perseguido. Chegou a registrar boletins de ocorrência e segundo consta, até em função desse perfil, que poderia vir de uma depressão, ele fez uma consulta no CAPS, que é um centro de apoio psicossocial, para tratar disso”, afirmou o delegado José Henrique Ventura, do Departamento de Polícia Judiciária de São Paulo Interior (Deinter-2), em entrevista coletiva após as mortes.

Os familiares confirmaram aos policiais que o atirador chegou a fazer tratamento para depressão e temiam que ele cometesse suicídio. O pai disse à investigação desconhecer o fato de o filho ter armas.

Homem atira e mata fiéis durante missa na catedral de Campinas — Foto: Arte / G1Homem atira e mata fiéis durante missa na catedral de Campinas — Foto: Arte / G1

Homem atira e mata fiéis durante missa na catedral de Campinas — Foto: Arte / G1

Estatuto do Desarmamento

Sancionado como lei federal em 2003, pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o Estatuto do Desarmamento limita a circulação e o porte de armas de fogo e munição. À época, uma intensa campanha nos meios de comunicação pedia que proprietários de armas as entregassem em postos específicos de recolhimento.

A lei previa a possibilidade de proibição da venda de armas e munições no país, exceto para profissões especificadas, caso a população a aprovasse a medida em referendo. Na consulta popular, realizada em 2005, a maioria dos eleitores disse não à proibição.

Com a rejeição, a compra e o porte de armas seguem autorizados no Brasil sob determinadas circunstâncias, como por exemplo, a realização de testes psicológicos em quem quer adquirir armamento.

ATAQUE NA CATEDRAL DE CAMPINAS