Festival de Gramado 2018: Com As Herdeiras e Benzinho, 2ª noite de competição é das protagonistas femininas

Irene e Chela tentam esconder seus sentimentos, mas uma hora as casas caem.

Perder um filho, ganhar um amor. À primeira vista a Irene (Karine Teles) de Benzinho e a Chela (Ana Brun, incrivelmente estreante) de As Herdeiras nada têm em comum além de serem bem desenvolvidas protagonistas absolutas de filmes dirigidos por homens. É possível, no entanto, conectar os sofrimentos silenciosos de ambas, que tentam manter a compostura, mas eventualmente não conseguem mais engolir o choro. Dois fortes candidatos aos Kikitos reunidos em sessão dupla no Festival de Gramado, que teve ainda a entrega do Troféu Eduardo Abelin a Carlos Saldanha.

A noite começou com o primeiro curta da competição brasileira, a comédia Um Filme de Baixo Orçamento, de Paulo Leierer. Pseudodocumentário (ou mockumentary) à la The Office, o filme faz uso da metalinguagem para ironizar o desconhecimento que boa parte das pessoas, especialmente as das áreas exatas, têm a respeito da produção audiovisual profissional. Com elenco afiado, encabeçado por Marcello Airoldi, e excelente montagem, a trama sobre cientistas que desejam fazer um vídeo sobre a rotina do laboratório em que trabalham arrancou gargalhadas do público presente no Palácio dos Festivais.

As Herdeiras, coprodução de vários países que estreia na última semana do mês nos cinemas brasileiros, é dirigido por Marcelo Martinessi e acompanha de forma não intrusiva a vida de Chela e Chiquita (Margarita Irun), casal de senhoras cuja renda vem da venda de objetos e móveis que receberam de herança, o que deixa a antiga e enorme casa em que vivem com ares de decadente feira. Interessado principalmente na cismada, desestimulada e cheia de má vontade Chela, o longa paraguaio é de certa forma um retrato do meme “classe média sofre” e fica bastante divertido a cada entrada em cena de Pituca (María Martins), típica velhinha fofoqueira, um pouco amargurada e sem papas na língua que todo mundo já viu ao menos uma vez na vida – sempre arrumada de maneira impecável e coberta de joias.

Premiado no Festival de Berlim, As Herdeiras dá tempo ao espectador para entender melhor Chela a partir de suas fragilidades (a solidão, o medo, o desejo, a passividade, a submissão) e muitas das informações sobre essa mulher exigem interpretação de indícios e a sensibilidade de notar que a câmera é o olho dela e observa cada cenário/pessoa/acontecimento de forma extremamente signficativa. Um belo retrato de mudança e revolução da própria vida tendo uma atração como combustível. Leia a crítica de Bruno Carmelo.

Dando sequência à reflexão sobre o feminino, Guaxuma, segundo curta da noite, apresentou em transitivos grãos de areia uma emocionante narrativa guiada pela memória e a saudade de tempos e pessoas que não voltam mais. De Nara Normande, a obra conjuga a complexidade da manipulação da areia em diferentes formas e cores e interações com a genuinidade desafetada da narração em primeira pessoa da própria cineasta. É como uma carta engarrafada capaz de tocar quem quer que a encontre, tanto pelo conteúdo, quanto pela peculiaridade da forma.

Por fim, Benzinho encerrou o segundo dia de competição jogando os espectadores no meio de uma família muito unida e também muito ouriçada, cuja matriarca, Irene, enfrenta o baque de ter que se despedir do filho mais velho em 20 dias. Nova parceira de Karine Teles, roteirista e atriz principal, com Gustavo Pizzi, roteirista e diretor, o longa tem várias caras conhecidas do elenco de Riscado e, assim como o trabalho anterior da dupla, multipremiado em Gramado 2011, oferece um retrato bem íntimo da vida de uma mulher única, mas com características, manias, dramas, frases e sonhos facilmente reconhecíveis em inúmeras.

Filmes que abordam a Síndrome do Ninho Vazio são raros e Benzinho se enquadra numa categoria ainda mais diferenciada, pois a protagonista tem outros três filhos, logo não é a maternidade como um todo que ela perderá com a ida do primogênito para a Alemanha. Sua vida, tampouco, se restringe a cuidar dos filhos. Ela o faz, assim como dedica atenção ao dilema da irmã (Adriana Esteves, brilhando com discrição), aos sonhos do marido (Otávio Müller), à formação educacional e ao ganha-pão.

Espontâneo como os gêmeos e com uma casa que é tão personagem quanto a residência de As Herdeiras, Benzinho possui uma energia solar mesmo quando trata de questões pesadas, um pouco como Irene mantendo a fachada enquanto implode. A família é uma verdadeira trupe, unida sobre o mesmo teto, se apoiando, gritando junto e entrando pela janela, mas, considerando o tema do filme, parece escassa a quantidade de interações entre Fernando (Konstantinos Sarris) e a mãe, afinal é tudo uma grande despedida – o que às vezes é esquecido. O “tudo ao mesmo tempo agora” da rotina de Irene é verossímil, mas não deveria fragilizar o drama principal.