“Um Dia Qualquer é uma tragédia grega à brasileira”, contam diretor e elenco do filme/série de ação (Exclusivo)

Ambicioso projeto realizado por Pedro von Krüger e protagonizado por Augusto Madeira e Mariana Nunes expande sua narrativa em um formato multimídia.

Rogerio von Krüger

Paralelepípedos, muros baixos, desbotados grafites da última Copa do Mundo colorindo a rua, rostos tranquilos, a preguiça de uma manhã de quinta-feira, o céu nublado em um bairro como outro qualquer da Zona Norte do Rio de Janeiro. O que destaca a cena de outras tantas iguais que ocorrem diariamente nos subúrbios da Cidade Maravilhosa é a verdadeira megaoperação montada para a produção de um ambicioso projeto: Um Dia Qualquer, drama de ação sobre o violento cotidiano da cidade que renderá um filme e uma série.

Gravadas simultaneamente, as duas obras compõem a estreia do documentarista e diretor de fotografia Pedro von Krüger (Estrada de Sonhos) como cineasta de ficção: “O objetivo desse filme é trazer um olhar cinematográfico para nossa contemporaneidade, para nossas questões sociais […] É uma tragédia, uma grande tragédia. Mas não trago essa tragédia, essa tristeza para que fiquemos inertes. Trago essa tragédia e essa tristeza para que a reflexão seja jogada na nossa cara. De frente para o crime, para a discussão. Para a gente se aprofundar nessa discussão”, explica o realizador e roteirista, em entrevista exclusiva ao AdoroCinema, concedida durante nossa visita ao set da produção.

Bacco Andrade O diretor Pedro von Krüger no set de Um Dia Qualquer.

Tal complexo estado das coisas, sintomatizado pela escalada de violência na capital fluminense, é traduzido em Um Dia Qualquer através de uma dicotomia, representada pela evangélica e ex-criminosa Penha (Mariana Nunes, de Zama) e o miliciano Quirino. Este, interpretado por Augusto Madeira (Bingo – O Rei das Manhãs) – finalmente alçado ao posto de protagonista após inúmeros papéis de destaque como coadjuvante -, é um ex-agente da lei desiludido. Depois de constatar que os caminhos da lei não poderiam trazer segurança, decidiu pegar a rota contrária para fazer justiça como as próprias mãos:

“Quirino era um policial civil em 2008. Vendo que a justiça não contribuía muito, ele começa a fazer justiça com as próprias mãos. Ao tentar resolver certas questões por conta própria, ele vai sendo levado para o que é a milícia de hoje em dia […] No início era só uma questão de vigilantes e agora é um business. Hoje em dia, dez anos depois, em 2018, o Quirino é o dono da milícia do bairro […] Uma das curiosidades do roteiro é que esse roteiro se passa durante 24 horas, então tudo que é desencadeado, os fatos dramáticos que acontecem, fazem um panorama de como funciona a estrutura da milícia como um projeto de poder através da política. E como ela convive com as igrejas evangélicas, com o narcotráfico”, conceitua Madeira.

Rogerio von Krüger Augusto Madeira vive o miliciano Quirino.

A estrutura temporal citada por Madeira é crucial para compreender o projeto ao redor de Um Dia Qualquer. Ao ambientar a trama no espaço de um dia – mais especificamente a segunda-feira pós-Carnaval -, os produtores da obra encapsulam todo o caos do Rio de Janeiro, devidamente elevado em épocas festivas, em um curto período de tempo. Contudo, as vantagens acarretadas por tal premissa também implicaram diretamente em uma seleção minuciosa de detalhes no que diz respeito à gênese dos personagem e às suas trajetórias – e é por isso mesmo que os realizadores agradeceram quando o canal Space, que exibiriá a série derivada do filme, entrou na jogada:

“Hoje, para fazer cinema, é preciso buscar muitos caminhos. E o caminho da televisão é super interessante. Além de ter uma janela de exibição, você aproveita o seu material, atinge outros públicos […] Foi muito interessante a transformação do longa para série porque tive mais espaço para contar a história pregressa dos meus personagens. Foi muito interessante ver que as histórias estavam muito claras, que os personagens estavam muito embasados […] Os personagens já existiam, já eram fortes por si só, já tinham suas tramas interligadas. E, por conta da série, vou poder mostrar ao público a gênese de Um Dia Qualquer, que é um episódio exclusivo da série”, contou o realizador.

Divulgação Mariana Nunes vive Penha.

O capítulo piloto ao qual von Krüger se refere transportará os espectadores para o ano de 2008, um retorno ao passado que será marcado, acima de tudo, pela grande transformação sofrida por Penha, a coprotagonista de Um Dia Qualquer, na década que separará o pontapé inicial do seriado e do restante de seus episódios e do longa-metragem. E se em 2018 o público encontrará a mulher entregue aos preceitos da igreja evangélica, a versão de dez anos antes da personagem promete chocar a audiência: Penha, na verdade, era uma das líderes do crime local, ao lado do traficante Seu Chapa, seu marido.

“Ela está muito mais plena na primeira fase”, explica Nunes, que enxerga sua personagem como uma espécie de ex-empresária do narco-negócio. Todavia, o desenrolar da vida roubou muito da impetuosidade de Penha, levando-a a um sofrido lugar de opressão, apenas perturbado pelo sumiço misterioso de seu filho, o mais politizado e aquele que levanta sua voz para denunciar os desmandos ocorridos no bairro: “A minha sensação é que, dez anos atrás, ela era mais expansiva e, dez anos depois, ela está mais introspectiva […] É uma grande tragédia e como toda grande tragédia os sentimentos, os fatos, são muito maiores do que as próprias pessoas, do que os próprios personagens. Então, vejo a Penha com uma mulher obstinada, cega pelo seu objetivo. E com um objetivo muito claro, que é a vingança”.

Divulgação

Na visão da atriz, aliás, transitar entre as duas fases da personagem quase significou compor dois papéis completamente distintos. Com o apoio de Sergio Penna, conceituado preparador de elenco trazido por von Krüger para aprofundar a imersão de seus atores na realidade dos subúrbios e periferias cariocas, Nunes construiu a principal diferença entre as duas fases de Penha através da corporalidade. Por meio do funk, a atriz encontrou a personagem que comandava as operações do tráfico local e, despindo-se de todo o frenesi provocado pelo popular gênero musical, Nunes sufocou a assertividade de Penha para atingir a estrutura psíquica de sua personagem no presente.

O trabalho de duas semanas de preparação do elenco liderado por Penna também foi instrumental para o processo da fundação do Quirino de Madeira, que chegou a se sentir dono de Marechal Hermes após os ensaios: “Nós não pegamos o roteiro. Quer dizer, falamos sobre o roteiro, mas sem ler. Fizemos vivências no bairro, com trabalho de corpo, e isso culminou em uma festa de seis horas em que todos estavámos vestidos como nossos personagens. Ganhamos corpo para as filmagens. Na gravação, é aquela loucura, liga e desliga, você está gravando e para e bota uma luz, aí você sai do personagem, volta a cena, volta o personagem. Então, quando você está mais íntimo dele, esse liga e desliga é mais fácil”.

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O realismo das performances derrama-se, evidentemente, na estética do projeto e na logística de produção. Egresso do cinema documental, o diretor de Um Dia Qualquer estabeleceu residência em Marechal Hermes durante as gravações e praticamente criou um bairro cenográfico baseado em locações 100% reais e suburbanas, como faz questão de frisar o produtor Denis Feijão (Raul – O Início, o Fim e o Meio). “A arquitetura e a vida do lugar te afetam como ator […] A gente faz preparação, estuda, se alimenta de algumas fontes mas eu chego no set com 40%, 50% do que vai ser a cena. Tenho que deixar essa margem para o que o outro ator vai sugerir, o que o set vai me influenciar, o enquadramento, a lente, tudo isso é muito determinante na hora”, arremata Madeira.

Vestido com um roupão azul e recebendo os últimos retoques em sua maquiagem após a pausa para o almoço antes de finalmente retornar ao set e à pele de Quirino, o sempre carismático e divertido Madeira aproveitou os instantes de calmaria para concluir nossa conversa com um resumo de Um Dia Qualquer – e, também, com uma análise certeira do atual estado das coisas no país: “A primeira vez que li o roteiro, logo pensei em uma estrutura de tragédia grega. Muita gente entende a tragédia grega como uma coisa sofrida, dolorosa, dramática. Não por isso. É porque, sobretudo, na tragédia, mesmo sabendo onde você vai terminar, você não consegue fugir do seu destino […] A tragédia do Brasil é não conseguir fugir de ser um país subdesenvolvido, um país que não avança na cidadania”.

Coestrelado por Tainá MedinaEli Ferreira e André Ramiro, Um Dia Qualquer deve rodar pelo circuito de festivais nacionais e internacionais antes de finalmente chegar ao circuito exibidor brasileiro. Segundo a previsão de Denis Feijão, que ainda deixou espaço para uma possível segunda temporada do seriado, cujo arco narrativo também se desenrolará no mesmo período de 24 horas do filme, Um Dia Qualquer deve ser lançado em outubro de 2019.