Westworld S02E04: O Enigma da Esfinge

Lisa Joy estreia na direção em um episódio repleto de respostas — e de novas perguntas.

HBO/Divulgação

Atenção! Contém SPOILERS do episódio 4 da segunda temporada de Westworld.

Quando um episódio de série começa com uma gigantesca referência a uma das aberturas mais icônicas de Lost, ele é obrigado a entregar algo, no mínimo, intrigante. Quando tal episódio trata-se da estreia de uma pessoa na direção — sendo tal pessoa a cocriadora da série, Lisa Joy —, as expectativas são ainda maiores. E sem abandonar a regra que fez da primeira temporada de Westworld o assunto do momento, ‘The Riddle of the Sphynx’ entregou uma boa parte do jogo, para logo em seguida fazer outras dezenas de perguntas.

Satisfez?

Dirigido por Lisa Joy, sem Dolores (Evan Rachel Wood) ou Maeve (Thandie Newton), o melhor episódio da temporada até aqui transformou-se no Show de William, numa interpretação fantástica de Ed Harris. Mas há muito a se decifrar, por isso vamos direto ao ponto.

“Se você está olhando para frente, está olhando na direção errada”

Os fãs mais atentos provavelmente já estavam cientes do retorno próximo de Elsie. A própria atriz, Shannon Woodward, estava deixando claro em seu Twitter que “ainda estava naquela série.” Mas a volta de Elsie é a porta de entrada para o grande segredo por trás dos objetivos da Delos com o parque, algo que vinha sendo subitamente insinuado há um certo tempo, e agora foi confirmado: trata-se a boa e velha busca da imortalidade.

Dado o fato, é bem interessante como o roteiro joga numa espécie de matrioska, uma charada dentro de outra charada. No meio do caminho, os dois arcos apresentados no início do episódio — os estranhos testes com Jim Delos (Peter Mullan) em ambiente fechado e os misteriosos experimentos no laboratório secreto do Setor 22 que Elsie e Bernard ‘descobrem’ — encontram-se e caminham juntos, mais ou menos da mesma forma como todas as subtramas da temporada estão caminhando para o mesmo destino. De fato, os ‘dois lugares’ são um só, e o que William veio tentando fazer durante todo este tempo era alcançar com sucesso a imortalidade digital.

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A parte mais intrigante desta revelação não é que os planos da Delos giram em torno da imortalidade, mas sim toda a ironia da situação: o velho Jim, ainda em vida e dono de uma empresa de Biotecnologia, desistiu da pesquisa da cura da doença que eventualmente o matou. Anos depois, 149 tentativas de trazer o sogro de volta adentro, William desiste de alcançar a imortalidade após o suicídio de sua esposa Juliet. Foi neste momento que ele percebeu o impacto da existência da morte. Não seria cruel se ele descobrisse logo que alguém terminou sua pesquisa para ele?

Ford sempre esteve um passo à frente, afinal.

No laboratório secreto do Setor 22, descobrimos a existência de um segundo tipo do “córtex” alocado nos cérebros dos anfitriões. Fica subentendido que as bolinhas 3D vermelhas contém material humano, ao contrário das brancas que são puramente fabricadas. Este é o ponto em que a história fica interessante.

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Segundo informa a Vanity Fair, a produção da série tem chamado o receptáculo de ‘chestnut’ (algo como ‘castanha’), enquanto a bolinha vermelha é chamada de pérola. Lembrou dos ‘Portões Perolados’? Pois é.

O fato de Bernard já ter estado ali antes pressupõe que Ford (Anthony Hopkins) sabia o que estava sendo feito no laboratório, confirmando o que ele disse mais de uma vez na primeira temporada, sobre estar ciente do que a Delos estava fazendo no parque. Ele também instruiu Bernard a roubar uma das pérolas vermelhas, o que casa perfeitamente com o anfitrião que ele estava construindo no subsolo antigo ainda na primeira temporada. Ou seja… existe uma consciência humana no corpo de um anfitrião circulando por aí.

A pergunta é: quem?

Desde a primeira season finale, boa parte dos fãs está convencida de que Robert Ford não está morto de verdade. São estes mesmos fãs que imediatamente vão concluir aqui que trata-se da consciência do próprio Ford que será implantada no corpo de um anfitrião. Mas esta opção não parece óbvia demais para Westworld?

Levando em consideração que esta será a primeira hipótese levantada por boa parte do público, é mais possível que aquela seja a mente de outra pessoa. Mesmo sem a presença de Hopkins na temporada, Ford tem sido importante e ele continua em todos os lugares, uma vez que espalhou a narrativa de seu jogo em vários dos residentes do parque, pelo mero prazer de continuar no caminho de William.

O que faz mais sentido, na verdade, é que aquela seja a consciência armazenada de Arnold. Esta possibilidade explicaria a cena mais intrigante da temporada até agora, que ocorre logo na abertura do episódio 1. Segundo esta possibilidade, Arnold pode ser a pessoa que acorda na praia duas semanas após o tiroteio, e não Bernard. Daí sua confusão mental e o fato de ele ter assumido a autoria de todas as mortes dos anfitriões na água.

Observe também que na cena de Elsie e Bernard no laboratório, ele tem um breve flash em que estaria lembrando daquele momento no futuro, indicando que esta confusão mental do personagem vai continuar. Poderia ser o próprio Arnold tentando acessar as memórias de Bernard. Ou poderia ser até mesmo uma outra versão Bernard — isso certamente explicaria a cena do trailer em que Charlotte (Tessa Thompson) encontra dezenas de ‘Jeffrey Wrights’ em um depósito.

Esta com certeza não é a última peça deste quebra-cabeças, mas talvez a arma de Dolores seja exatamente a ‘ressurreição’ de Arnold — só para seguir com o tema bíblico e os paralelos messiânicos da protagonista. Ela disse que está indo para ‘Glory/O Além do Vale/Os Portões Perolados’ e lá estará a arma de que ela precisa para vencer a guerra. Bem, já concluímos aqui anteriormente que a tal arma não deve ser uma arma de fogo de fato, mas algo único. Uma versão renascida da consciência de seu criador, a pessoa que ela realmente ama, parece única o suficiente.

Enquanto isso, do outro lado…

Há algo bem interessante e sutil acontecendo com a tribo Ghost Nation nesta temporada; no primeiro episódio, vimos Dolores matar um dos membros e dizer que ele não merecia ir para o “Além do Vale”. Neste episódio, descobrimos que eles estão poupando os anfitriões, o que parece ser o exato oposto do que eles deveriam estar fazendo. Não há muito o que decifrar aqui, mas estes personagens estão muito mais ativos nesta temporada do que estiveram na anterior, e algo sugere que eles podem se tornar ainda mais centrais à trama durante a metade final.

E ainda tratando de personagens mais promissores do que se imagina, o episódio revela que Grace na verdade é Emily, filha de William, interpretada por Katja Herbers. Os dois têm uma relação enfraquecida, já que ela culpa o pai pelo suicídio da mãe, mas parece saber muito sobre os parques — como o seu caderno de anotações no episódio ‘Virtù e Fortuna’ já sugeria. Tendo em mente as circunstâncias que fizeram Emily sair do The Raj e ir parar em Westworld, é improvável que Ford tenha planejado este encontro entre pai e filha, mas é algo que faz sentido com o enigma do jogo. A filha de Lawrence diz a William que ele não entendeu o jogo e que precisa parar de olhar para frente e começar a olhar para trás. Talvez isto signifique olhar para o seu próprio passado, e o encontro com a filha deve despertar justamente isso.

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É bastante provável que o jogo que Ford montou para William guarde um segredo ainda mais cruel para ele. Supondo que o fim seja ‘A Porta’ que estava na charada do episódio 1, o que quer que esteja atrás da porta precisa ser algo significativo (ou significativamente cruel) para o Homem de Preto.

Tanto ele quando Dolores e dezenas de outros núcleos estão se encaminhando para este mesmo lugar, mas com objetivos diferentes. Ela quer uma arma; ele quer destruir tudo. E se o que estiver lá fizer ambos questionarem seus planos?

Aguardemos…

Episódio: 2.04 – The Riddle of the Sphynx
Escrito por: Gina Atwater, Jonathan Nolan
Dirigido por: Lisa Joy
Exibido originalmente em: 13/05/2018