The Flash comete alguns exageros, mas volta a percorrer um bom caminho (Crítica da 4ª temporada)

Após uma 3ª temporada problemática, a série estrelada por Grant Gustin reconquista o público, apesar de ainda ter defeitos.

NOTA: 3,0/5,0

Quem diria que The Flash seria o show com problemas para encontrar seu espaço no ‘Arrowverse’, não é mesmo? Afinal, Supergirl é a série de empoderamento feminino com clima leve. Legends of Tomorrow ultrapassa todos os limites do absurdo. Arrow sempre é aquele “pé no chão” e, se contarmos, Black Lightning é a obra de crítica social. Então, o que sobra para o querido Velocista Escarlate? Após uma quase catástrófica terceira temporada (saudades episódio musical!), os produtores voltaram para as origens, abandonando o clima sombrio, para investir no humor durante nas aventuras de Barry Allen (Grant Gustin). Funcionou tão bem quanto seus dois anos iniciais? Não. Mas o show retomou parte de sua magia.

Na quarta temporada, o pessoal do S.T.A.R Labs enfrenta o genial Clifford DeVoe/Pensador (Neil Sandilands) – que não é um velocista, algo que já deve ser comemorado. Porém, tal vilão ficou apagado pela necessidade constante em tentar desvendar seus planos. Primeiro, precisavam descobrir quem eram os novos 12 meta-humanos criados, o que demorou a temporada quase inteira. Quando isso terminou, o espectador ainda não fazia ideia sobre seu objetivo, algo somente revelado na reta final. Demorar a entender as motivações do personagem culmina na falta de identificação e interesse do público, já que DeVoe ficou preso em apenas uma nota. (Ps: seu grande momento finalmente chegou numa cena de luta num corredor, claramente inspirada em Demolidor, mas que ficou bacana!)

Para complicar, se a volta dos “casos da semana” trouxe frescor nas tramas, o ritmo ficou completamente cansativo e repetitivo. Já virou tradição: Barry e seus amigos descobriam a identidade do meta. Tenatavam protegê-lo. Falhavam miseravelmente. Devoe se tornava ainda mais poderoso e psicopata. E o ciclo se repetia, como um verso de “Volta o Cão Arrependido”. Com tal recorrência, não houve espaço para o desenvolvimento dos protagonistas, sempre presos nos mesmos questionamentos e problemas. 

O grande divisor entre as duas partes da temporada foi “O Julgamento do Flash”, arco onde Barry é incriminado pela “morte” de Devoe. Como adaptação da famosa HQ homônima, os fãs conservadores se decepcionaram, afinal não teve a ver com a história original. Porém, como TV… Funciona! Colocar seu protagonista numa situação completamente fora de sua zona de conforto, em perigo constante, com sua identidade secreta correndo riscos, foi uma ideia bacana e poderia ter sido até mais explorada. Porém, não culminou em apenas um capítulo como aconteceu em “Flashpoint”, então já então estamos no lucro.

Aliás, esta é a hora ideal para explicar qual é o maior defeito dos últimos anos de The Flash: não saber aproveitar seu protagonista! Sim, trata-se de um show cheio de personagens cativantes, que merecem ter seu espaço, mas se perde nessa ideologia clichê de “Nós somos o Flash”. Grant Gustin segue ótimo e se virando com todas as loucuras que uma adaptação de quadrinhos pode proporcionar em seu caminho, mas o personagem perdeu total poder de decisão. Quem assumiu o papel de capitã foi Iris (uma competente Candice Patton), com um bom desenvolvimento na temporada. Mas, no final das contas, esse é o show sobre um homem atingido por um raio, então ele deveria líderar seu habilidoso time. Não é a toa que o melhor episódio do ano é “Enter Flashtime”, onde o velocista precisa lidar com uma explosão nuclear praticamente sozinho, literalmente sem parar de correr. Tal ideia absurda gerou uma hora de puro entretenimento de qualidade – um dos pontos altos junto ao crossover “Crisis on Earth-X”.

Se pecaram no desenvolvimento de Barry, foi um acerto investir na dobradinha dele com Ralph (Hartley Sawyer), já que ambos promoveram cenas hilárias e até emocionantes. Por sua vez, nem tudo relacionado ao Homem-Elástico é perfeito. Muitas piadas do detetive particular eram bem exageradas – numa tentativa clara de mostrar como os produtores ouviram as reclamações do público e voltaram a investir no humor. Outro exagero desnecessário? As convenções de Harrison Wells. Tudo bem querer aproveitar o talento de Tom Cavanagh, mas não precisam criar várias versões estereótipadas de uma mesma pessoa por piadas fracas.

Infelizmente, Cisco (Carlos Valdes) e Joe (Jesse L. Martin) tiveram poucos momentos para brilhar nesse ano, enquanto os poderes absurdos de Cecile (Danielle Nicolet) surgiram como um claro ‘ex-machina’ para derrotar DeVoe. Logo, foi a vez da dualidade Caitlin Snow/Nevasca (Danielle Panabaker) ganhar destaque. A ideia de transformá-la numa espécie de Hulk com poderes de gelo, investindo em duas personalidades completamente independentes, pode não ter sido a maneira mais eficaz para manter ambos os lados da personagem na trama, porém dá para aceitar. Principalmente, depois da surpresa sobre a origem de Killer Frost – algo a ser desvendado no futuro.

Ainda vale a pena ressaltar, rapidamente, as presenças de outros personagens durante o ano. A ideia de criar uma vilã recorrente é ótima, porém a performance de Katee Sackhoff é exagerada, tornando sua Amunet bem cansativa. Já Wentworth Miller provou que ainda sabe conquistar o público com a versão heróica de seu papel, o Cidadão Frio – que fez a gente torcer para ele não se despedir do ‘Arrowverse’. Mas quem roubou a cena mesmo foi Kim Engelbrecht, entregando uma Marlize bem mais complexa do que uma simples ajudante de vilão. Prova disso foram seus embates com Iris, sempre promovendo momentos interessantes. 

Por fim, é hora de falar da grande questão da quarta temporada de The Flash. Não precisavam alongar a dúvida ao redor da Garçonete Misteriosa durante 16 episódios. Todo mundo já sabia que Jessica Parker Kennedy estava interpretando a filha de Barry e Iris do futuro. Porém, a performance da atriz é tão divertida e energética que mantém a atenção do espectador. Logo, o público não se vê tão empolgado pelo retorno do show desde o anúncio de “Flashpoint”. Só resta torcer para o resultado ser bem melhor do que aquele…